Mais fácil terminar o dia sentada em uma cadeira cinza do que acordar cedo e ir à aula pela manhã.
Mas fui à aula pela manhã. A contragosto. Não do horário; da aula.
Revirava, revirava, revira. Uma, duas, três, quatro... cinco, seis, sete e oito pessoas na sala. O resto virá de noite.
A professora é a mesma supervisora de estágio. Tudo o que ela dizia ali eu já ouvi. Seus 27 anos não transmitiam muita experiência e nem muitas novidades.
Logo acabou e eu fui estender a toalha de chita e colocar as inscrições sobre a mesa vaga e suja.
A organização artística, o grito de fazer algo por gostar de fazer e sem merecer pontos no Currículo Lattes me deixava um pouco aliviada. A arte ainda salva.
Entrei cedo, nem tinha fome ainda. Como sempre, cheio de pessoas que conheço por rosto ou só por nome, ou nunca vi; algumas que conheço por já ter trocado 5 "oi´s" e poucas por eu gostar de verdade.
Não era o melhor cardápio: carne picadinha e polenta com molho de tomate; o melhor ficou para o final: sexta-feira tem filé de frango à milanesa, creme de milho e creme chinês.
Procuramos um lugar para sentarmos e almoçarmos em paz, um à frente do outro.
O suco era amarelo-esverdeado. Talvez fosse de caju, mas há controvérsias.
Comecei a comer.
Alguma coisa estava me perturbando.
A comida estava com o gosto de sempre, mas alguma coisa estava me perturbando.
O RU urrava. As pessoas falavam, muitas pessoas falavam ao mesmo tempo.
Ouço do meu lado:
- O primeiro Thor era um humano, não era? Ele encontrou o martelo.
O QUÊ?
Quase me intrometi.
Ao lado, um grupo feminino (e não feminista) conversava exaltado.
Uma em específico falava muito para a quem estava a 70 cm de distância.
-Vamos comer lá fora?
Ele me olhou e não levou a sério.
- É sério, vamos?
Não há placa nem pessoa que impeça. Mas nem eu levei a sério. Seria uma intervenção - unespianos adoram uma intervenção.
Os nerds vagaram ao lado e nos distanciamos do galinheiro de dangolas. Ainda assim estavam murmúrios altos.
- Eu vou matar um... - segurava a faca sem ponta - Deixe-me escolher minha vítima.
Cerrei os olhos e escolhia uma cabeça.
- Pegue esta, quase não tem corte, a pessoa sofrerá um pouco mais...
Escolhi a menina que devia ser surda, o bastante para berrar por não se ouvir.
- Quando ela se levantar, vamos segui-la até a devolução de bandejas. Puxe-a pelo rabo-de-cavalo e eu dou uma rasteira. Vamos fazê-la no rolete com uma maçã na boca! - a sobremesa do almoço era uma maçã.
E então o barulho diminuiu!
- Telepatia homicida!
Funciona! Funciona!!!
Já dizem os desenhos mais bacanas da geração atual: "Cacetada, chega de cara de bonzinho" (Pinguins de Madagascar).
Há 4 anos, os finais de semestre são sempre os piores.
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