domingo, 26 de julho de 2015

Acidentes de Percurso

E a teoria do chá de boldo

Boldo é um mato engraçado. Quando ainda residia em Assis, via aos montes crescendo nos canteiros da rua e pensava na sua utilidade pelas repúblicas ao redor. Contudo, não foi na faculdade que provei um bom chá de boldo.
Foi por acaso que nos encontramos naquele Carnaval em 2014.
Amigos de amigos se encontraram na Benedito Calixto e assim nos conhecemos: você é da Puc também, faz tempo que chegou, teu sotaque é diferente, de onde você é?

E como se estivesse marcado para ser, a música sela de vez o interesse em comum. Falo sobre Cícero Lins e ele me fala sobre Silva, aquele moço que há meses eu tentava descobrir quem era o autor da música da propaganda da Natura.

Mas desde antes uma dor de estômago insiste em incomodar. Já pelas tantas da madrugada naquele carnaval sem bloco nem marchinhas, prefiro ir para casa. Como sempre, sair com Rachel é sempre uma aventura porvir e aquela noite não seria diferente. Os amigos de minha amiga mineira foram dormir mais cedo e deixaram a chave na caixa do correio conforme o combinado. Tudo certo: a chave estará me esperando, dando o  passaporte para a casa dela e quem sabe um remédio para a dor no estômago que não me deixava em paz. Meu novo conhecido por coincidência mora perto da casa de minha amiga e resolve me acompanhar. Sorte a minha.

A surpresa: as chaves do pequeno apartamento não estavam no lugar deixado. Levaram a chave embora! Após um segundo pensando que iria estreiar dormir na rua naquela noite, meu novo amigo alagoano me oferece abrigo  - sorte que ele é mais inteligente que nós e mantém suas chaves consigo. Além de um colchão na sala, ele oferece o melhor chá de boldo que já provei. Surge então uma amizade e uma teoria: apenas as pessoas de coração bom fazem chá de boldo tão tragáveis como chá de cidreira. Nem vó acertaria tão em cheio.

E assim nosso primeiro bom encontro foi regado a chá de boldo e mais conversa. Conversa aquela que você fala e escuta e o outro faz o mesmo, no anseio da gente se conhecer. Isso é raro hoje em dia, são amizades raras. Amizades que apaixonam.

Dias depois ele me manda na rede social do momento a música que mais me recorda aquele alagoano de sorriso sincero, sotaque encantador e tocador de banjo, violão, teclado e viola caipira: "Visita", do Silva. Danço na ponta dos pés junto com os acordes abafadinhos do violão e me movimento conforme as notas do violino.

O Fenômeno torna a acontecer. Esse sentimento de que nada mais é necessário além da companhia e o atualizar dos afetos a cada encontro dá a sensação de que nos vimos há pouquíssimo tempo pela última vez - há uma semana, diria - e nos conhecemos há uma década.
Isso é raro. É precioso. É o que traz vida em suas sutilezas.

É Bem. Cachorro Grande sabe do que falo. 

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