terça-feira, 27 de julho de 2021

Você, Lê

Eu descobri que sou uma caçadora de problemas. 
Se eles não estão à minha vista, os procuro em todos os lugares: embaixo da cama, atrás da porta, em cima da mesa, dentro do espelho. Fico relembrando tudo o que já aconteceu na minha vida e inventando o que virá. Tento construir uma história que sei que não vai acontecer e espero impacientemente que ela aconteça. 

Contudo, após 16 anos em terapia (interruptamente), uma Faculdade de Psicologia, duas pós-graduações, 31 anos de idade, um livro lançado, amores tantos que por meu coração passaram, aprendi um pouco a me dar contornos e ver o presente. 

Olho para o lado e vejo você, Lê. Você que é o improvável que eu tanto pedi, a surpresa que eu tanto fingi não esperar, o amor que eu tanto quis sentir mais uma vez. Ando rabugenta com as surpresas, mesmo as que eu quis que acontecessem. São as marcas de uma Vida esperada e desenhada, tal como meus pais desejaram que fosse. Quando as coisas fugiram do trilho (a Vida sempre foge), fiquei um pouco ranzinza com a Vida, ainda que a ame. Porém, ela voltou e trouxe você, Lê.

Hoje me dei conta de que preciso aproveitar mais a Vida. Aproveitar o leite condensado que fiz pela primeira vez sozinha (e que virou brigadeiro depois), a criatividade que eu mostro para poucos e que passo horas admirando, o prazer de me presentear com o que eu cozinho, aproveitar o seu sorriso e a sua risada que iluminam o ambiente, seus olhos que mudam de acordo com as suas emoções e são os mais belos que já vi, o desejo de entregar meu corpo ao seu quando vem uma onda de tesão e que eu não quero planejar o que pode acontecer a seguir (assim como quando eu te conheci). Aproveitar a Vida com você, Lê, pois eu não sei o que vai vir a seguir. 

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