terça-feira, 21 de agosto de 2012

"How It Ends"

Tudo... termina. 

Já faz anos que um dia comentei de uma história, história da época de cursinho pré-vestibular (mas ninguém faz curso para viver longe do ninho, da asa e do arroz empapado da mãe).

Ela tinha o mesmo nome que o meu.
A conheci no primeiro dia, na sala de aula que teríamos algumas reposições futuras, quando eu e outros entramos alcoolicamente felizes com o aniversário de um amigo e mal parávamos de rir. As cadeiras não eram fixas no chão.
Ainda pensava em Direito. Por causa do passar dos anos, talvez me engane se disser que ela tentava Imagem e Som na Federal de São Carlos. Mas era isso, assim como me recordo do seu cabelo liso e preto,  com um volume proposital por causa do corte, deixando a cabeça avolumada também. Usava blusa azul anil, sem nenhum decote. Calça jeans. Era magra. Japonesa. Tímida.

Talvez por ser tímida como uma coruja, eu também me aproximasse melhor de pessoas quietas. Mas os anos passam, a vida longe pede posturas. Há timidez, mas há o social. 
Procurei lugar, rapidamente como sempre. Ela já estava. Sentei ao lado.
Pergunta básica, como a quem se encontra no ponto de ônibus e pergunta-se a hora:
- Oi! O que você presta?
Sorriu.
- Imagem e Som, na UFSCar - falava muito baixo.
Havia uma outra a seu lado, achei que se conhecessem.
- Não, a conheci hoje.

Dali começou uma tímida, mas bonita amizade.
Seus pais moravam no Japão; ela morava com a irmã mais velha. Era da minha idade (18 anos na época), ou mais velha (uns 2 anos). Trabalhava na ex-Telefonica. Estudava quando dava. Era um doce.
Ainda assim percebia coisas que ela não dizia. Algo me mostrava dor.

Às vezes ela faltava. Às vezes almoçávamos juntas. Em época de Páscoa trocamos chocolates. No meu aniversário ela me deu um bibelô com dois golfinhos, com o cartão verbal:
- Oi, menina de 18 anos!
Guardo com carinho.
Queria que ela fosse na festinha que teve, mas não deu jeito.
Queria que ela continuasse aqui.

Em maio, não vou precisar o dia, ela começou a faltar muito. Vários dias.
Estava sentada na terceira fileira quando a ajudante de coordenação me veio com uma cópia de um RG.
- Você a conhece?
Era uma cópia de um RG!
- Sim.
- Ela sofreu três paradas cardíacas e está no hospital.
Carros de fórmula 1 não viriam mais rápido que minha lágrimas aos olhos.
- Quando aconteceu?
Os tios estavam na recepção. Explicaram: ela chegou, deitou, disse à irmã que estava muito cansada e não acordou mais. Estava em coma.
Era algo surreal.
Passaram o hospital, disseram que podia visitá-la. Passei meu telefone.

Colegas perguntaram o que havia acontecido. Sempre é uma surpresa.

Um ou dois dias se foram, eu tinha esperança.
Por volta das 19hs de uma noite recebi uma ligação.

No dia seguinte, uma quinta-feira, na melhor aula da semana, do professor mais querido, mandei um bilhetinho, escrito em cima: "Alê".
Ao terminar de ler, disse:
- Pode vir aqui na frente, fique à vontade.
Levantei-me, já chorando. Passei pela pernas dobradas, peguei o microfone sem fio. Tremia. Eu não queria estar fazendo aquilo.
Chorava vermelha. Uma pessoa da nossa sala tinha falecido por conta de três paradas cardíacas, havia ficado em coma por dias e faleceu no dia anterior. Pedia orações para descansar em paz.
Olhares incrédulos.
Devolvi o microfone. Um colega de cabelos encaracolados (devia ter minha idade) me olhou, "força, você fez o que devia ter sido feito".
1 minuto de silêncio.

No intervalo, abraços de conhecidos de vista apenas. Abraços... só abraços. Algumas palavras, só palavras.
Desci as escadas chorando, o professor de química perguntou o que houve, sem tirar os olhos
Fui conversar com a 'psicóloga'. Oras...

Ela não foi a primeira amiga que vi ir. Amiga minha, sim. Mas já vi outras jóias de vinte e nada anos irem.
Morte.

Já se foram alguns parentes. E um professor da faculdade. Segundo semestre de 2009, após a greve. Era manhã de setembro, um dia após conversarmos.

E hoje, na caixa de emails, algo diferente das oportunidades de intercâmbio e programa "Ciência Sem Fronteiras": "Portaria 123 por Luto Oficial".
Ao invés de discente, li docente. 
- Não conheço.
Li novamente.
"Luto Oficial nesta faculdade por três dias a contar a partir de hoje pelo falecimento da (...) discente do 3º ano de Psicologia (...)"


Na hora do almoço vi um casal de amigos se abraçando. Alguma coisa havia se passado em seus rostos.
Olhava discretamente, de longe.
As cenas se juntaram.

Procuro quem era a jovem. Foi minha caloura, era do terceiro ano. Fazia um esforço tremendo para lembrar dela... Argh, no máximo nos corredores. Só. Mas mesmo assim, era jovem. Foi minha caloura.

Não há mais o que escrever. Porém por favor, não reflitam; só vivam.




Do You Think There´s a Heaven? - (Michel Danna & DeVochKa)  - Little Miss Sunshine Soundtrack

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