Lembro de quando ganhamos essa mesa.
Morávamos nós quatro ainda em São Paulo e minha mãe namorava um moço, o mais legal dos seus namorados. Ele trazia às três crianças três saquinhos com doces. Ele levava doces, cestas básicas (era pequenina demais para entender por quê minha mãe ficava tão aliviada ao vê-lo com as sacolas de compras e eu não associava que nosso arroz e feijão vinham dali), mas o mais importante para mim eram os doces.
Mal tínhamos móveis no nosso apartamento e nos deu uma mesa de metal pintada de branco com duas cadeiras.
Essa mesa nos acompanhou por mais duas mudanças. Ficava ao centro da cozinha, mas era pequena demais. Acabou no quintal quando minha irmã e eu, com nossas mesadas, compramos uma mesa maior, com quatro cadeiras.
Quando me mudei para Assis, levei a tal mesa com a cadeira que lhe restou. A outra não aguentou tantas mudanças e ficou pelo caminho.
A mesa virou mesa da sala, mesa do quarto, escrivaninha (nunca tive uma escrivaniha, destas tradicionais, com lugar para computador e espaço para os CD's), apoio para trocar lâmpada, mesa de truco, mesa de artesanato.
Em 2011 roubei um cartaz da faculdade com uma gravura enorme e chamativa - uma criança revistando um policial. O evento não me recordo sobre o quê, mas falava de opressão e repressão. A cara da Unesp. Anos mais tarde saberia que aquela gravura era uma reprodução do grafiteiro inglês Bansky. O espaço de folha em branco começa a ser preenchido.
Encontro na revista do Conselho Regional de Psicologia (veio a mim por doação) Wall-E e aqueles olhinhos do último cachorro lixeiro mecânico que caiu do caminhão de mudança na Terra. A partir deles não me recordo bem a ordem.
Assim foi nascendo um tipo de bricolagem com as figuras das revistas (segue-se a evolução: Capricho, Gloss - era razoavemente boa com sua sessão "Mundo" com novidades da arte e do design, (descobri sobre Inhotim e sobre Bansky lá) e depois sabe-se lá o que ocorreu que só publica-se sobre corpo e maquiagem) e por fim, a amada TPM, a Trip para mulheres. Menos maquiagem e um pouco mais de política.
Quando Joaquim me adotou, as figuras para a mesa dividiram a função como figuras para ímãs. A idéia era levantar fundos com a venda do ímãs (particularmente bons) para cuidar do adoecido canino. Contudo, o projeto se materializou, mas não levantou fundos - não saiu da porta da minha geladeira.
Os espaços em branco na mesa foram ficando escassos e as fotos e figuras maiores não tinha vez. Uma ou outra saíram, mas a maioria aderiu com sucesso.
Grudadas apenas com durex, a poeira foi-se juntando. Mas tudo bem, é assim mesmo. Arte não faz-se sempre limpa.
Até que chegou-se ao ponto de que, pelo tempo e pelo uso, as figuras e o durex começam a se desprender, rasgar em alguns pontos. Era a hora de finalizar.
Nos últimos dias resgato mais alguns recortes e tento encaixá-los. Olho com carinho para os desenhos que se conversam; os outros solitários que acharam seu espaço em meio a outros. Cada um foi pensado, em seu tempo, fazendo sentido de estar ali. De cada um sei ao menos um pouco de sua história (de onde veio, o que significa, por que aquele cantinho e qual a relação com a minha vida.
Quando estava na escola, os pais das crianças mais abastadas encapavam seus livros com contact. Minha mãe sempre encapava meus livros com aquele plástico mole que eu passava a unha e fazia ondas. Hoje estou na pós e um pouco mais de dinheiro que naquela época e posso comprar contact para minha mesa.
Por fim, é hora de fechar. É necessário passar o adesivo contact para finalizar esse afeto.
Como artista sonhadora, imagino minha mesa em algum museu de arte moderna (ou alternativa):
"Artista: P. A. B.
Título da Obra: (En)Fim.
Ano: 2011-2015
Técnica: Papel, jornal, revista, amor e histórias sobre aço.
Tamanho: 50cm x 50cm x 3cm
Localização: Campinas"
Fim.
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