Tudo começou no final de semana, quando vi um evento no Facebook: Oficina de Dança Teatro terça às 17h30 na Unicamp.
- Pouco antes do Cabaret* - pensei.
Convidei a jaguatirica Aliane, conforme havíamos combinado. Pedi ajuda a ela para me arrancar da reunião de equipe às 17h pontualmente, ou não sairia mais.
Às 17h15 estávamos a caminho. Sucesso.
A chuva começou a dar sinais de sua ilustre presença:
- Chuva é boa, é ótima. Mas acaba por molhar os rolês...
17h30. Trânsito.
- Ih Pati, relaxa. FusUnicamp, vai atrasar com certeza...
A Oficina começou às 18h30 (descontem uma hora pelo horário de verão).
May começou a chamar quem estava nos arredores. Alguns tímidos interessados se cativaram pela curiosidade e se agregaram. Ninguém sabia o que estava por vir.
Alonga, estica, respira, dói, é bom, ai que tontura, toma consciência do movimento, ri, descobre.
Expressa: resgata um sonho ou uma memória, transforma em movimento, repete. Isso é colagem e repetição.
Resgato minha gestoteca do teatro e das danças. Desabrocha, cresce, exibe, volta, pequena, interna, retorna, grande, agradece.
É a música, a dança, o teatro, a literatura, a fala, a expressão, o corpo, o (não) dizível.
Foi uma nutrição de abraços, trocas, afetos, companhias, corações e almas abertas ao novo.
No fim, a chuva transferiu o Cabaret para a próxima semana, mas as almas estavam abertas demais: ainda sob a chuva houve apresentações lindas. Aproximei-me e dei abrigo no meu guarda-chuva ao apresentador clown bastante alto, com inspiração em Chaplin, joelhos sobressalentes de bolinhas de tênis, rosto pálido de pancake e bochechas rosadas de rouge -- um pseudo-flerte, daqueles que flerto sozinha. Como houve poucos minutos de som, o público auxiliou na trilha sonora com palmas à la funk.
Quando cruzava o pátio, vejo um rosto conhecido em meio às claves e bolinhas que voavam sem cair: Yandi, a uruguaia mais linda da Ocupação da Rua do Olvidor nº 63.
- Ali! É ela!
A personagem da história que contava no carro ganhara vida.
Quando a chuva apertou e as pessoas decidiram se abrigar no pátio, vi que eram 22h e que estava na hora de ir. Aliane me acompanhava até o carro.
- Pati, se você não tivesse me convidado, eu não viria. Daria qualquer desculpa, iria para casa e lá ficaria.
- Eu também, Ali. Não conseguiria sair da reunião a tempo, daria-me uma desculpa qualquer e não viria. MAS, nós viemos, cá estamos e foi ótimo!
A arte cura, a arte salva. Ouvi isso mais de uma vez nessa noite.
Ao Universo: gratidão. Gratidão. Gratidão.
*evento realizado mensalmente por alunos da Unicamp e demais voluntários amantes da arte circense. No evento, os inscritos apresentam números e shows em uma estrutura montada pelos organizadores de forma aberta ao público. A contribuição e reconhecimento é feita no chapéu (sem valor fixo).
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