Nota: compre velas.
Mandei mensagem após sair exausta do trabalho e antes de entrar no mercado para comprar meia dúzia de coisas para a minha sobrevivência.
"Está tudo difícil como sempre. Sinto saudade e espero, de verdade, que você esteja bem".
Ele respondeu.
"Que houve?".
Não ía encher nosso contato esporádico contando as peripécias cotidianas e minhas tentativas de acerto como tiros ao alvo.
Ao invés disso, respondi:
"Quer mesmo saber? Vamos falar de coisa boa, como o último lançamento do café Nespresso".
Cheguei em casa com as compras, preparei algo.
Mandei "Estou assistindo Stranger Things. Se você estivesse assistindo, teríamos algum assunto".
E enquanto ele respondia com o trailer de Gabriel e a Montanha, fui assistir mais um episódio da série nostálgica dos anos 80, pausando para ler e responder o que ele mandava.
Acabou lá pelas 11h30 da noite e coloquei um vídeo para ir ouvindo enquanto lavava a louça e esperava a próxima mensagem.
Lá pelas 11h45 disse que ía tomar banho para dormir, meu dia seguinte começaria às 6h da manhã. O dele às 4h30 (sempre, sempre, sempre tem alguém pior que você). Despedi-me primeiro, por orgulho.
Nova mensagem:
"Ah, mas estamos conversando até agora... Vamos conversar até meia noite".
E em seguida: "O que tem ouvido [de música]?"
Antes que eu pudesse responder, sou surpreendida por um clarão na rua. Todas as luzes se apagaram e eu fiquei na completa escuridão, exceto pela luz do computador que ainda tinha bateria, mas que por problemas técnicos não duraria mais que 10 minutos. Subiu um frio na espinha e a certeza de que o Dermagogon ou qualquer medo de infância surgiria nas sombras para me levar para os confins da escuridão.
Respondi desesperada:
"ACABOU A LUZ, FICA CONVERSANDO COMIGO! SE EU NÃO RESPONDER EM 3 SEGUNDOS ALGUMA COISA APARECEU E ME PEGOU"
Fui procurar uma vela e só achei um toco de dois dedos. "Droga, isso não vai durar muito", pensei.
Liguei a lanterna do celular e fui rápida no que precisava fazer. A bateria do telefone também não duraria, precisava dele para acordar no dia seguinte (se eu estivesse viva).
Enquanto ele ria e tirava uma onda com a minha cara e com meu medo, respondi:
"Tenho ouvido Blink 182".
Deu tempo de escovar os dentes. Obviamente não tomaria banho gelado, ainda mais no escuro.
Num súbito, resolvi ligar para ele. O coração batia forte. Contava o número de chamadas. "Ele não vai atender, nunca atende...".
Atendeu.
Enquanto conversavamos sobre qualquer coisa, foi o tempo de verificar se a porta e janelas estava trancadas. Consegui chegar no quarto com o toco de vela quase no fim e trancar a porta. Já me sentia mais segura.
"Olha embaixo da cama hahaha"
"Cê tá maluco?!"
Troquei de roupa e sentei na cama. Ainda conversávamos.
Não me contive e perguntei:
"Eu não entendo porque você não atende minhas ligações".
"Não é... é que..." e justificou.
Não importava, ele me atendeu naquele momento e já era o suficiente. Ele me atendeu quando tinha a certeza que o escuro me devoraria.
Não quis me delongar.
Nos despedimos e desliguei. Poucos minutos depois, uma mensagem:
"Sua voz é uma boa lembrança". Mais que o brilho do celular, meus olhos brilharam.
Deitei, lembrando, pensando: "ele volta um dia, universo?"
O toco de vela esgotou-se e eu adormeci.
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