Estou sem carro há cerca de dois meses. Meu Sapinho (um Clio 2002 cor de burro quando foge) e eu começamos a nos desentender há algum tempo. Mesmo eu cuidando com todo carinho e dedicação, conversando sempre, a idade chega e os problemas também.
Para quem não sabe, crio uma relação afetiva com as coisas que me rodeiam desde quando comecei a morar sozinha - vide o texto "Malditas Tecnologias - Eu, eu mesma e as coisas".
E com Sapinho não foi diferente. Ele teve problema no coração, consertei. O cérebro pifou, ficou caro, arrumei. Troco seus fluidos sempre no prazo. Admito que banho eu deixo a desejar. E no momento, o problema da vez são suas crises de ausência.
Recomendaram-me um transplante, mas sigo aguardando na fila, esperando novos cabos e conectores que o façam funcionar novamente.
Minhas conversas implorando para que funcionasse não estavam mais sendo suficientes.
Então parti para os transporte coletivos. Uma nova rotina se estruturou - correr atrás de ônibus virou cotidiano, se organizar para não ficar sem carga no cartão, olhar aflita no aplicativo e calcular o tempo, raciocinar se vale a pena pegar um ônibus ou três, abrir todas as janelas (sob olhares de protesto) pois estamos em pandemia, descobrir que sentar na segunda metade do biarticulado me faz passar mal, o ônibus não parar no ponto de sempre pois o ponto de parada mudou de um dia para outro, chorar de raiva pelo atraso.
E ontem, pós-plantão, sabendo que demoraria entre 1h e 1h30 a chegar em casa, resolvi descer no ponto que tem mais opções, mas que ando mais.
Desci a ladeira de casa atenta e andando rápido, com meu guarda-chuva rosa pink em punho como se fosse uma Hatori Hanzo, olhando alerta a rua escura e vazia.
Então veio minha mãe à mente. Lembrei de quando morávamos no apartamento sem elevador na Zona Sul de São Paulo, de quando tínhamos carro, mas ele quebrava com frequencia, de quando minha mãe o vendeu e passamos a andar de ônibus, de quando saía para trabalhar via transporte coletivo logo cedo e voltava de noite de Embu das Artes, de meia-calça, salto alto e roupas de advogada, cheia de pastas, processos, pensando nos casos que acompanhava e nos três filhos sozinhos em casa, enquanto subia a ladeira até chegar ao condomínio.
Vi-me tão parecida aquela situação. E isso me orgulhou. Senti orgulho de ter uma referência de mulher batalhadora, que "não deixava a peteca cair", como ela dizia, que reterritorializou seu território existencial diversas vezes, mas sempre com seus filhotes junto de si, até que estes criassem a mesma independência que ela ensinou e fossem criar seus próprios territórios. A diferença entre nós é que escolhi não ser mãe (talvez mais tarde). E escolhi ser psicóloga.
Então parei de reclamar. Sigo cansada, aflita, sentindo falta da autonomia de dirigir o próprio caminho, cantar e falar com o Sapinho (ou seja: sozinha). Porém, lembrar de minha mãe é saber que posso recomeçar sempre, com altos e baixos, sucessos e fruatrações, mas com amor.
E escrevo tudo isso em meio aos solavancos do ônibus, pois não dá para esperar chegar em um lugar para chorar; será aqui.
Como nossos pais - Belchior (cantado por Elis Regina)
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