quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Habeas Corpus

Cheguei às 8h05 da manhã para visitá-lo. 
Identifiquei-me na recepção. Aguardei o contato interno para liberarem minha entrada. 
Apresentei-me ao vigia, peguei chaves para guardar minha mochila e objetos de metal no armário. Levei apenas o necessário ao atendimento: lápis, agenda, um bloco de notas de papel.
Entrei após atravessar um portão de ferro e uma porta de madeira com uma pequena janela na altura da cabeça. 

Adentrei ao longo corredor, onde vinte internos vestiam roupas da mesma tonalidade. Cumprimentei com respeito quem encontrei ao longo do caminho. Sinalizei minha chegada. 

Antes de começar a traçar os próximos passos, conversei com meu cliente, que me cumprimentou com Kin Lai*. Devolvi a ele Kin Lai* e, em seguida, ele apertou minha mão firmemente com um sorriso no rosto. Sabia que eu estava ali para auxiliá-lo no que fosse possível. Notei um ganho de peso importante. Afinal, no total já fazem 4 meses da primeira restrição de sua livre circulação.  

Conversamos brevemente e ele me contou sobre seu bom comportamento. Disse que estava ansioso por sua perícia e que quer, o mais breve possível, voltar à vida de antes. Não reconheceu bem os limites que ultrapassou antes de ser levado para lá, onde só se entra com permissão. Orientei que estava lá para fazer o que podia para ajudá-lo. 

Pedi licença e me ausentei para conversar com quem está a par de seu comportamento lá. No convívio com os outros, é adequado, respeitoso. Na avaliação direta, oscila, treme, tem planos amplos, diversos e maníacos. Soube que a família tem comparecido às visitas e indagado se vai melhorar para sair logo. 

Chamei-o novamente, agora também com quem está com ele diariamente. Percebo seu desejo por liberdade e pela vida que lhe é de direito aos 25 anos. Ao mesmo tempo, seus argumentos, raciocínio e  contratualidade ainda estavam flutuantes e contradizentes. Expus os limites do seu transtorno e necessidade de continuar, condicionalmente à liberdade, sendo acompanhado pelo serviço especializado. Propus acompanhá-lo à perícia e, após, retornarmos ao Centro de Atenção Psicossocial para que continuar em assistência 24h por mais alguns dias. Escutei a indignação do meu cliente em ser tão jovem e se sentir refém de remédios, consultas, médicos, profissionais de saúde, serviços de urgência e emergência, pessoas lhe dizendo o quão louco está e que é necessário permanecer internado no hospital. Contudo, lhe informei que eu não poderia decidir só, sem consultar o corpo de jurados de seu caso. Preparei os argumentos e voltei ao CAPS. 

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Saí da Enfermaria de Saúde Mental do Hospital esperançosa de que conseguiria investir na liberdade terapêutica da vida e continuaria o suporte à crise da minha referência no leito-noite do CAPS. 

Porém, há histórico de fugas, faltas, mudanças de planos e acordos feitos com o próprio usuário, contratualidades que deixaram a equipe em dúvida quanto à salubridade de transferi-lo de internação. Era mais fácil a estabilização do quadro ainda internado do que apostas ousadas em uma crise longa e grave.  

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Amargamente eu concordei. Frustrada, aceitei que o habeas corpus do meu cliente não foi aceito pela minha equipe-júri. Pedi que a notícia ao cliente não fosse dada por mim; já estava cansada, faminta e sem forças para continuar naquele momento. 

Encerrada a sessão, um dos membros me acessou e acolheu a minha insatisfação, mas mostrando a necessidade de permanência dele em ambiente restritivo. Meus olhos se encheram de lágrimas e não pude continuar discutindo a respeito, 

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Tenho me movimentado pelo afeto e pela empatia a quem me cabe a organização do cuidado. Avalio a necessidade de ambiente protegido ao usuário da minha referência, mas tenho senti o desejo de não limitar a clínica ao controle das paredes, mas ao contorno do vínculo. 


*Cumprimento da Arte Marcial Kung Fu. 

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