Na última sexta-feira eu decidi que deixarei meu trabalho. Não minha profissão, mas o que eu sou contratada para fazer atualmente. Mais uma crise na qual não tive estrutura emocional e me senti tão exposta como se eu andasse nua em via pública.
Nesse domingo acordamos, Menina Linda e acordamos com más notícias: o irmão dela havia sofrido um acidente de trânsito na madrugada e estava sendo operado. Viemos para o Hospital. Desde que recebemos a notícia, coisas interessantes aconteceram:
- Antes de chegarmos, fomos tentar comprar um cigarro e um moço em situação de rua nos parou e pediu comida. Eu andava meio dessensibilizada (e sem $).
Façamos um flashback: ontem minha mãe e duas primas vieram nos visitar. Uma dela é bombeira civil (e falou de várias situações que ela prestou primeiro atendimento a acidentes de trânsito -- caso do irmão da Lê). A outra é enfermeira do SUS (orgulho!): Trabalha na vigilância sanitária de uma cidadezinha pequena aqui perto. Ela contou como atende frequentemente um rapaz em situação de rua que a procura NA VIGILÂNCIA SANITÁRIA e ela já sacou que o quadro dele aponta para cirrose hepática, além deoe ter epilepsia. Mesmo assim, ela atende, escuta, dá café, pāo, bolacha e o trata como gente. Já até lavou as roupas dele uma vez. Infelizmente, é um caso lindo para o CAPS e para o Posto de Saúde (que funcionam ao lado da Vigilância), mas as equipes cagam e não fazem (quase ) nada por ele.
Relembrei de muita coisa, do quanto saúde é um direito de TODOS, independente de tudo. Repito: independente de tudo. O vídeo que você me mandou é justamente o que eu faço totalmente ao contrário.
Voltando: hoje um rapaz disse que não tinha comido nada. Peguei uma marmita e os olhos dele brilharam. Agradeceu muito. Disse para procurar o Consultório na Rua (serviço do SUS que atende na rua população em situação de rua e faz exame de sangue, consulta, avaliação de enfermagem, encaminhamento, pede mais exames, faz vínculo e trata como gente), alem de entregar um folhetim que orienta todos os lugares em Campinas que entregam alimentação de graça ou a 1 real, além de fornecer banho e tratar como gente.
Eu lembrei que tinha um travesseiro no carro e ele agradeceu, disse que tem sinusite e que poderia piorar o quadro de saúde. Mas mesmo assim desejo um bom final de semana.
Ao deixar a Lê no hospital, fui ao mercado, comprei um monte de bolacha e frutas, fiz café e chá, trouxe para ela e a toda a família que estava aqui se alimentar e aguentar a barra das notícias. Um senhorzinho viu que eu com uma caixa e uma sacola cheia de coisas e pediu café. Dei com umas bolachas.
Aí eu me lembrei que eu gosto disso: de solidariedade, de tratar pessoas com respeito em suas necessidades mais básicas (comida e ser reconhecida como gente).
Eu tinha me esquecido.
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