terça-feira, 16 de abril de 2024

EU ♥ SUS

 Foram 4 anos de investimento neste caso. Não é uma só pessoa: é uma família. 

Foram visitas em casa, discussão de caso, (re)vinculação, confiança, auxílio no banho, manejo, ideias, pandemia e eu não consigo usar máscara, molhar a cabeça muitas vezes para ficar bonita, injeções em dia (e correndo atrás das atrasadas), o que você vai fazer, o restante da família existe, ela ama ser mimada, ela sofreu violência, estão roubando ele, roubaram minha filha e minhas panelas, vida e morte da matriarca, tem que tirar os ratos primeiro para depois tirar os acúmulos. 

Hoje foi o dia que consegui, finalmente, vislumbrar o que todos os envolvidos e não envolvidos me perguntavam: "Quando vão limpar aquela casa?". 

Fui com duas pessoas da equipe da Vigilância Ambiental à Administração Regional (órgão da prefeitura que é responsável pela poda de árvores, retirada de entulhos e outros trabalhos braçais e nada glamourosos e delicados). Lá, enquanto aguardávamos o coordenador, conversávamos sobre esse fenômeno que são as pessoas que acumulam objetos específicos e inespecíficos em suas casas - a ponto de mal terem onde dormir. 

No meio da conversa, fomos chamados à sala do coordenador: um homem na casa dos 50 anos, com a pele bastante queimada de sol, uma camiseta azul surrada pelo trabalho e um chapéu panamá velho. Novamente: um chapéu panamá. 

A equipe da vigilância pediu o necessário para retirar os acúmulos de tantos anos: um caminhão e mão-de-obra. O coordenador questionou o que fazer com tais pessoas que acumulam; a equipe explicou a diferença entre "recicladores bagunçados" e genuínos acumuladores (pessoas em sofrimento mental grave e que perdem a noção do limite da quantidade de objetos em sua casa/local que reside, não conseguindo se desfazer do montante, acarretando prejuízos às suas relações, às suas rotinas e à sua saúde). A comunidade liga na prefeitura, reclama e eles repassam à Vigilância. Ou retiram o que está no entre o limite do público e do privado: o que está na calçada é levado embora pela própria população. 

A Vigilância, por sua vez, tenta negociar: vai à casa, explica sobre a insalubridade da situação, faz vínculo com a pessoa para ajudá-la a compreender a necessidade de limpeza, negocia das formas mais malucas e possíveis para a retirada dos acúmulos que a vizinhança não aguenta mais conviver. 

Como todo órgão da prefeitura, obviamente que não seria hoje que agendaríamos a retirada da casa que eu acompanho há 4 anos: seria necessário a Vigilância preencher um documento, enviar para uma pessoa, que enviará para uma pessoa, que enviará para uma pessoa, que enviará para o coordenardor da A.R. e que, aí sim, agendará a retirada. 

Por hora, é isso. 

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Saindo de lá e pegando carona no transporte da prefeitura (um Corsa branco com 4 portas sem direção hidráulica), a equipe da Vigilância começa a dar nome, território e história das pessoas que acumulam: J., O., F.

E se há algo que eu não resisto é ver alguém com vontade de trabalhar. 

- A minha equipe vai me matar - disse eu ressabiada e não menos, encantada - mas mandem os nomes e endereços dessas pessoas para eu entender qual Postinho de Saúde atende, onde moram... Podemos marcar uma reunião para pensar em formas de acessá-las. 

O comichão do SUS se agita dentro de mim e, por dentro, eu sorrio. 

Se há algo que me encanta no SUS é poder entrar na loucura do outro (munido da minha própria) e convidá-lo a cuidar de si (ainda que isso leve 4 anos ou mais). 

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