segunda-feira, 22 de abril de 2024

Quando Nos Falamos em Inglês

Eu me surpreendo com o nível de adoecimento daquela família. 
Não obstante à minha surpresa, eu me interesso pelo adoecimento daquela família. 
Eu não apenas me interesso pelo adoecimento daquela família: eu quero sensibilizar as pessoas a cuidarem daquela família. 
Não quero apenas sensibilizar, eu desejo que aquela família cuide de si própria (no que for possível). 

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Há 9 dias ele chegou novamente ao CAPS após uma intervenção dura. Necessária, mas dura. 
Há 9 dias ele quase não se comunicava. Passa os dias sentado na área de convivência, quase não interage apesar dos sucessivos esforços de quem está ali para cuidar dele. 
Ele me chama a atenção. Ele é jovem, tem os cabelos escuros tais como do irmão (que também trata no CAPS) e, naturalmente, os traços mais maduros (ele é o mais velho). Os olhos de ambos são muito expressivos e atentos. Contudo, do mais novo (mas não o caçula; há mais um) conseguimos nos aproximar e construir planos, compreender desejos e acolher suas perguntas tão interessadas quanto interessantes quanto capiciosas. 

Do outro, quase não há perguntas. Quase não há interação. Quase não há conversas.
Isso me instigou. Não me aquietou em uma posição confortável, pelo contrário. 

Já nos conhecíamos da sua outra passagem por ali. Indaguei se recordava meu nome; negou. 

Sentei ao seu lado e fiz algumas poucas perguntas; tive poucas respostas verbais e muitas expressivas. 
Conseguiu, espontaneamente, me dizer que gosta de ler e gostou de "Jogos Vorazes", mas não sabia expressar opinião a respeito por não se recordar da história e não ter lido o terceiro livro. 
Busquei compreender mais seus interesses e só trouxe que gosta de Geografia. Isso foi tudo. 

No dia seguinte, mais algumas tentativas de contato e fuga pelo "não sei". A sensação era "tudo o que for dito aqui poderá ser usado contra você". 

Mas hoje houve algo diferente. 

Sentei-me ao seu lado na área de convivência, como sempre. É alto, mesmo sentado. Mas a postura muito curvada me chamou a atenção. Estava claramente desconfortável naquele ambiente. Ainda assim, estava ali. Sentado. 

Comecei perguntando sobre o que havia achado sobre os livros que havia lhe levado na última sexta-feira (de obras de ficcção como "A história sem fim" e da coletânea de contos "Forward"* ao livro de física "Do átomo ao buraco negro" e de geografia brasileira: "A história natural da Chapada Diamantina". Escolheu os dois últimos. 

*curiosamente, ele quase disse "Forward não significa..." e não continuou. 

Apenas disse que leu algumas coisas. Contudo, tudo o que diz é permeado por dificuldade, quase uma timidez amedrontada. 

Entre um silêncio e outro (uma pergunta sem resposta ou uma resposta depois de vários minutos), falamos sobre barba, cabelo e bigode (ele cortou o cabelo no final de semana). Falamos sobre sabermos ou não nossas origens e como isso pode gerar características físicas. Falou que pareço japonesa. Falei sobre minha origem familiar indígena e italiana. Ele desconhece as próprias; sugeri/apostei portuguesa (e quem sabe indígena). Ele perguntou o que significa "signore" em italiano; procuramos no google e soubemos da diferença entre singnore e singor. 

Ele perguntou se eu falo inglês. Respondi: "Do you speak english?". Ele respondeu: "Yes, I do". 

A partir daí a comunicação fluiu como não havia fluído até então. 
Pudemos estabelecer um diálogo. Finalmente: um diálogo! 

Estava muito contente, era claro. E ele também. 

Eu poderia ter aproveitado 87 caminhos diferentes, mas foi apenas uma conversa sobre música, filmes, irmãos, cabelos. 

Encerrei explicando (em inglês) que retomaríamos nossa conversa (enferrujada até então, mas mostrando sinais de movimento) on wednesday, because tomorrow the team gonna have a meeting out there the CAPS. 

See you! 

Espero que sim.

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