domingo, 17 de outubro de 2021

Tempestade

Desde criança a raiva me cega. É uma energia quase incontrolável de destruir tudo e todos que eu penso que querem me destruir. A raiva é o medo de ser feita das piores coisas que eu penso que podem fazer comigo. 

Ontem eu fiquei cega novamente. Fui tomada por todos os pensamentos que julguei serem antecipações de um futuro próximo e, como um filme, minhas visões apareceram no meu cérebro e as sensações no meu corpo. 

Uma voz muito tímida (sempre ela) tentou me alertar de que estava cedo demais para desanuviar a raiva que ainda estava dentro. Insisti por teimosia. O resultado foi o pior possível contra eu mesma e contra quem eu amo. 

O mar do meu corpo estava enfurecido. As ondas eram crescentes e cada vez mais eu queria afundar o barco dela, acusando de algo que ela, seguramente, não tinha culpam. Foi caótico para nós duas. 

Porém, apesar de tantas trovoadas e relâmpagos, eu pedi para que ficasse. Ela aceitou deitar na minha cama ao meu lado e não me deixar à deriva sozinha. 

Ao acordarmos, o dia estava nublado. Conseguimos conversar e entender o que aconteceu; eu me desculpei com ela, mas ainda não me desculpei comigo mesma por me maltratar tanto - nestes casos, só o tempo e muitas noites de sono para elaborar. 

A única coisa que consegui entender é que a raiva me cega. Quando estou enraivecida, eu quero destruir quem eu sinto que está me destruindo. Talvez seja isso: eu sinto, mas não necessariamente está acontecendo. 

O mais curioso é que ela passa. A Cegueira passa e eu consigo perceber o furacão que passou por mim e a destruição feita (dessa vez, no meu próprio rosto). Quando a luz da racionalidade se acende novamente, penso:
- Eu poderia ter esperado a raiva passar. 

Está mais difícil do que nunca confiar. Está sendo mais necessário do que sempre foi. 

Obrigada, Lê, por você exisitir. Apesar de mais nova, você tem mais maturidade emocional que eu. 

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